Um lugar...em algum lugar...algum dia.

Hoje era um pouco mais cedo que o comum quando fui tomar meu café. Sem pressa decidi comprar pães frescos.
No percurso que fiz até a padaria, me espantei e me aproveitei das ruas vazias. A sensação de cantar e andar no meio da rua é algo maravilhoso. Era muito mais do que poder pensar alto...era conversar com o mundo e ser ouvido.
Tive de me conter um pouco quando percebi que estranhamente a rua estava mesmo vazia.
Não havia se quer uma pessoa durmindo na rua. Talvez pela primeira vez eu voltara de casa sem ser interrompido por um pedido de esmola. O sol àquela hora não mais iluminava o dia. Esquentava.

Apesar dos momentos de puro prazer, incluindo o meu café da manhã com pães frescos, tudo não demorara mais que alguns minutos. Como  uma pessoa ansiosa que sou liguei a televisão.
Me diverti no início com a falta de pratica em ser alegre daquele repórter. Parecer espontâneo nunca foi tão difícil para alguém da mídia. Mas talvez tamanha dificuldade estivesse relacionada à quantidade.
Não me interpretem mal, felicidade nunca é demais, mas aquele noticiário parecia só ter boas notícias.
Até mesmo as noticias que relatavam o fim de algo trágico não tinham a ver com os males da sociedade.
Não havia roubos. Não havia assassinato. Não tinha sequestro, ambição, muito menos corrupção.
Não havia relatos de mortes.
Nem por fome ou qualquer outra razão.
Tudo estava tão diferente que eu não pude acreditar. Afinal, era mesmo inacreditável.

Foi aí então que me dei conta do que estava acontecendo. Era um pesadelo.
Pessoas alegres, em paz, sem passar fome, justas, e boas umas com as outras.
Nossa, aquilo ali era muito diferente de tudo que eu conhecia. Só podia ser um pesadelo.
E como tudo na vida...se é diferente há o que temer. E eu temi.
Temi que aquele dia nunca mais acabasse. Imagina se fosse daquele jeito...para sempre.

Como seria viver num mundo em que não tivesses do que reclamar em grupo.
Aonde não pudéssemos nos gabar de algo, ou nos fazer de vítimas perante uma real necessidade.
Percebi então que devia fazer algo. Todo o tipo de relação social que existia estava para acabar.
Não conseguia imaginar como as pessoas se relacionariam dali para frente.
Eu imaginava o silêncio no táxi na volta para a casa.
O onibus quieto na hora do hush, ou pior: Pessoas contentes com suas vidas. sem reclamar do seu dia ou passado. Apenas visando o lindo e próspero futuro.

Ali já era de mais pra mim. Eu estava caindo em pé. Era como se meus olhos e minha alma fossem jogadas ao chão e o corpo permanecesse. De repente tive uma sensação de tremor no corpo e então acordei.

Ufa, havia sido apenas um sonho. E como todos, este também chegou ao fim...
Mas por sorte este não me abalou.
Não sou de acreditar em sonhos, pesadelos, ou de achar que eles significam algo. É bem verdade que alguns acabam se tornando realidade. Mas esse eu tinha certeza que não aconteceria...Um alívio para todos.
Hoje a sociedade pode respirar em paz. As coisas não vão mudar. Não por hoje...

Comentários

Antonio Rossano disse…
As coisas não vão mudar. Não por hoje... Não por amanhã... Infelizmente, não por um curto/médio prazo...

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