A Casa
De repente dei por mim, deitado no banco de trás do carro. Não consigo lembrar se eu tenho uma lembrança mais antiga que essa, mas a sensação que tenho é que a vida acabara de começar. O mundo todo estava de cabeça para baixo: as nuvens pareciam um mar de algodão, as árvores pareciam plantas de outro planeta e os prédios, plantações esquisitas de concreto. Era uma sensação estranha e ao mesmo tempo boa, ver tudo ao contrário.
Quando o carro parou, eu não conseguia tirar os olhos daquele muro de pedras amarelas. A graça da brincadeira era imaginar tudo certo, mesmo vendo de cabeça para baixo. Mas devido à inclinação da ladeira onde o carro havia parado, eu não pude. O muro não tinha início nem fim e confundiu meu cérebro. Me desvirei com ansiedade e então vi "A Casa". A parede de pedras amarelas que eu vira, era na verdade, a lateral do segundo andar (apenas). O muro que delimitava o terreno era muito maior e tinha um formato de escada engraçado.
Dentro da garagem havia um carro enorme, azul, que mais parecia um ônibus pequeno. Tudo por ali era grande demais, mas eu ainda não tinha visto nada! Ao sair da garagem e ignorar os lances de escada, que me tapavam toda a visão, me deparei com uma imensidão de sol. O lugar era enorme e todo coberto pelas pedras amarelas, que refletiam luz melhor que um espelho. Não só pela claridade, como também pelo calor, me parecia que o sol morava ali. Quando meus olhos se adaptaram e finalmente voltei a enxergar, vi que eu só podia estar no topo do mundo. Se existia o paraíso na terra, eu com certeza o havia encontrado.
O terreno todo, parecia ter mil metros quadrados. À minha esquerda, erguia-se a casa. Com exceção da parede que dava para a rua, a mesma que eu vira ainda no carro, a casa era toda branca com janelas de madeira escura e uma varanda se estendia de um lado ao outro do segundo andar. À minha direita eu via uma piscina, que por anos eu fantasiei ser olímpica, de tão grande que me parecia. Funda, com um azul claro impecável, ela quase roubava toda a atenção. Mas logo adiante eu podia ver também uma quadra de futebol, cujo comprimento era a lateral de todo o terreno.
Quando olhei para frente eu vi uma mesa de madeira, retangular e comprida. Seu marrom tinha um tom quase roxo e acompanhava dois bancos, um de cada lado da mesa. Em cada banco podiam se sentar até sete pessoas e em um deles estavam sentados a minha avó, o irmão do meu avô e dois amigos: sardinha e pedrinho. Já meu avô, forte e barrigudo como um touro, estava em pé ao fogão, como sempre. Ele era o dono daquela casa maravilhosa. Tão apaixonado, que eu nunca imaginei que viesse a vendê-la. Mas afinal, o que eu sabia da vida quando ainda era pequeno?
São incontáveis e insubstituíveis, as lembranças que tenho daquele lugar. Os primeiros anos foram marcados por muito sol, piscina, o melhor pão com ovo do mundo, fantasias de carnaval e muita brincadeira com a Madona, nossa cachorra, cujo tamanho era tão exagerado quanto toda aquela atmosfera. Os anos foram passando e a vida foi deixando marcas, em cada viagem que eu fazia ao meu tão precioso esconderijo. Em pouco tempo, minha avó não frequentava mais a casa e a Madona e o Sardinha eram apenas lembranças de um passado alegre.
O tempo continuou a fazer seu papel e eu continuei registrando memórias incríveis naquele lugar. Quando a linha do tempo chegou ao fim para o tão saudoso Pedrinho, tudo já estava diferente. As viagens estavam solitárias, sequer encontrávamos meu avô na casa. Ela continuava imensa e divertida, mas o tempo havia mudado tudo. Com a puberdade algumas coisas perderam a graça. Pular na piscina não era mais um fascínio tão grande para mim e minhas irmãs, e a situação financeira da época parecia não deixar que nos entregássemos à casa por completo.
Quando a satisfação em fazer aquela viagem já havia se perdido para os meus pais, a amizade tomou seu lugar de direito e conseguimos encher a casa mais algumas vezes. Houveram disputas na quadra, fotos e conversas ao nascer do sol, ceias de ano novo, churrascos, yakissobas e até uma verdadeira macarronada italiana. Jogamos imagem e ação quase todas as noites, e muitas rodadas de cartas, nenhuma delas sem a menção ao meu tio avô que dizia "Olha a mão molhada no meu baralho!".
Quando eu já havia cursado mais da metade da faculdade, cheguei a acreditar que um dia eu seria herdeiro daquele reinado. Os rumores sobre a venda da casa não eram mais novidade, mas ainda que aos pedaços, bastava que a sustentassem por mais alguns anos e então eu poderia reerguê-la. Mas infelizmente, não passou de um sonho.
Hoje o paraíso não existe mais. Meu castelo e esconderijo não são mais meus. Nunca poderei levar para lá alguém que eu amo. Nunca poderei ensinar meus filhos a andar de bicicleta na mesma quadra, como meu pai fez comigo. Mas jamais esquecerei o céu estrelado, a brisa do entardecer e nem aquele nascer do sol.

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