O Legista

A sala é quieta e cheia de pensamentos. Não pela presença da morte mas sim pela ausência da vida que um dia existiu. Ali, tudo e nada coexistem em plena harmonia. Talvez, seja o único momento em que o vazio preenche e basta!

Acredito que mesmo quando levados ao extremo, nunca expressamos exatamente o que sentimos. Por isso, só você sabe como é ser você.
Somente sua boca compreende o quão verdadeira foi aquela gargalhada. Seu coração é o único que sabe como foi difícil continuar batendo depois daquele adeus. E só seus olhos conhecem as verdades que foram ditas, mas aprisionadas pela boca.

Por anos a matéria guardou tudo o que esse alguém já foi. Registrou e foi registro de cada ação, desde as mais vitais e inconscientes até as mais brutais. E agora, esse corpo que um dia foi representante da alma, não significa mais nada. A essência do ser se esvaiu.
Aqui, na eminência do partir, tudo está lacrado. Em minhas mãos possuo tudo o que restou. Um cofre que não pode ser aberto. Um livro que não pode ser lido e por isso, ninguém jamais entenderá.

Imagino se ele conheceu o amor e viu tudo o que queria ver. Se em meio a tanta correria ele teria realmente vivido, ou apenas sobrevivido. Me pergunto se no fim valeu a pena.
Eu me indago sobre justiça e busco significado na vida, pois não acredito no acaso. Admito que alguns acontecimentos diários não têm causa e não buscam uma consequência, mas quando isso acontece nós não reparamos. E se reparamos, chamamos de coincidência.
Mas se você pensar no acaso como motivo de nossa existência... Não! É muito forte, não acredito.

Não me pergunto o porquê da minha vida, mas sim o porquê de tudo existir. Por que há a existência? Por que a vida não é simplesmente nada? Uma imensidão de preto sem nome, ou algo inimaginável?
Para mim, existe uma razão pra tudo isso e eu a chamo de Deus.
Eu acredito que há um significado para alguns acontecimentos. E que a vida de cada um tem um propósito. Mas não acredito que tudo já está escrito antes mesmo de nascermos.

Então, mesmo acreditando em Deus, eu me pergunto se a vida foi justa com esse homem. Se não, eu preferiria não estar aqui. Devia ser Ele, a tomar esse corpo. Enquanto Deus recebe as respostas para as minhas perguntas eu descubro apenas o que não interessa mais: a razão da morte.
Com respeito eu abro seu peito e não sei se foi feliz. Removo seu coração, mas não sei se de fato amou. Quando finalmente fecho seu corpo, ele não está mais ali. O livro fechado se foi sem que eu pudesse lê-lo. E no fim, nada mais importa.

Por isso, eu gosto de corpos marcados. Tatuados com felicidade, amor e vida! Sinto como se finalmente ganhasse um pedaço de suas histórias. Gosto de poder conjecturar sob rugas e imaginar sob cicatrizes. A vida deixa marcas, e de um jeito ou de outro, isso é sempre bom. Só temos uma chance nessa vida. Se você temer suas marcas, pode acabar não vivendo.

Comentários

Unknown disse…
Muiito bom!!!! 👏 um dos melhores!

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