Um Anjo...
Não sei vocês, mas eu me lembro muito bem de como era a vida lá em cima, antes de eu nascer. Nós, seres ainda sem existência - nem anjo, nem homem, nem nada; apenas nossa essência - observávamos a terra com os críticos olhos de uma criança. Era difícil compreender porque algumas coisas aconteciam. Difícil de entender algumas atitudes. Para nós, os homens eram simplesmente teimosos demais. Quase burros. Isso incomodava e também nos mantinha atentos.
Era complicado não ficar olhando a tudo que acontecia aqui em baixo. Mas nós tentávamos evitar. Diziam, os anjos, que não fazia bem prestar muita atenção nos acontecimentos mundanos.
Era dito que de tanto olhar para baixo um dia você acabava caindo e isso ninguém queria. Lá em cima era tudo perfeito afinal...
Mas a grande verdade é que cada um, sempre dava uma espiada. E com o tempo nós nos apegávamos a alguns seres, especificamente teimosos, claro.
Não tinha graça vigiar uma vida perfeitinha, era tedioso. Já a angustia mesmo vinha de olhar para aquelas pessoas que nós julgávamos merecer mais do que tinham, por alguma razão.
O que nós não sabíamos era que a angústia já era um sinal ruim. Um sentimento. Coisa que não deveria existir por lá. Nesse estágio, era apenas uma questão de tempo até cair. E foi o que me aconteceu.
Me lembro de acompanhar, lá de cima, uma linda mulher. Trabalhadora, teimosa e com um puro coração. De tanto que observei, um dia me apaixonei.
Quando um ser sem existência descobre o que é o amor ele se torna pesado demais para continuar nas nuvens. E então um dia ele simplesmente cai.
Assim, eu despenquei do céu. Não suportei a queda e simplesmente apaguei, adormeci.
Quando me dei conta, tudo parecia diferente. Eu me sentia diferente. Agora havia muitas cores e muito barulho para eu assimilar. A minha perspectiva de mundo passara a ser outra. Aquilo era a realidade e como se fosse possível, eu estava ainda mais assustado do que quando caíra.
Entrei em desespero e pus-me a chorar.
Mas de repente eu a vi!
Enquanto ela me segurava forte em seus braços eu não pudia acreditar em como aquilo havia acontecido.
Quais eram as chances de eu cair e ser salvo pela minha amada?
Foi então que eu compreendi tudo. Eu não caí por que a amei, mas sim porque ela me amou primeiro.
Meu dever aqui sempre foi protegê-la, mas até que eu estivesse pronto foi ela quem cuidou de mim.
No final, eu descobri que meu anjo estava na terra e que aqui eu deveria chamá-la de Mãe.
(Obviamente eu dedico esse texto a minha mãe.
Obrigado por tudo, mãe. Te amo!)

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